segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Procurando Kafka em Praga

Por Carla Fernanda da Silva
e Sally Satler

Antes mesmo de chegar à Praga, na República Tcheca, estávamos ansiosas para ir até os locais em que Kafka viveu e percorreu, tentar encontrar a cidade que inspirou e influenciou o escritor lido e relido ao longo dos anos. Na primeira noite em que caminhamos, nos deparamos com uma livraria que leva o seu nome e encontramos um pequeno livro sobre os lugares que ele viveu e frequentou. Escrito por um estudioso de sua vida e obra, esse foi um dos melhores achados desta viagem, junto com uma HQ d’A Metamorfose’, que apesar de estar escrito em tcheco (não em alemão, na língua no qual Kafka escreveu sua obra), não resistimos, pois as ilustrações faziam uma clara referência aos desenhos de Kafka e o idioma tcheco parecia nos aproximar um pouco mais do seu cotidiano pelas ruas de Praga. Nessa primeira noite, mal imaginávamos o quanto Kafka estaria sempre perto de nossas caminhadas pela labiríntica cidade, que por tantas vezes nos perdemos.

Desenhos de Kafka

No segundo dia, partimos para o distrito do Castelo de Praga, onde viveram os antigos monarcas e hoje é a sede do presidente tcheco.  Para além do belíssimo Castelo, da Catedral de S. Vito e da beleza modesta da pequena Igreja de São Jiri (S. Jorge), o que mais nos agradou foram as pequenas e intocadas casas de vila no Golden Lane, local onde viveram aqueles que construíram o distrito do Castelo, e que sucessivamente foram alugadas para diversas pessoas, entre elas Kafka, que residiu na nº 22, onde escreveu “Um Médico Rural” – hoje uma charmosa livraria - , a cartomante Matylda Prusová – torturada e assassinada por nazistas alemães – e o historiador amador e colecionador de filmes Josef Kazda; além de abrigar um minúsculo Pub para aqueles trabalhadores, com o curioso desenho de um demônio em suas paredes.

Golden Lane - uma das casas que Kafka morou

Golden Lane - casa da cartomante Matylda

Golden Lane - casa  do historiador amador
e colecionador  de filmes Josef Kazda

Golden Lane - pequeno pub dos trabalhadores

A nossa procura pelo escritor continuou com a ida ao Museu Kafka, que inicia com uma breve passagem sobre a sua vida familiar e perpassa pelas dificuldades de relacionamento entre ele e o pai, especialmente. Seus manuscritos e desenhos foram expostos sob algumas mesas de vidro e em fichários, como aqueles das nossas antigas bibliotecas. Mas o mais interessante ainda estava por vir: em direção a uma cave, descemos vários degraus onde tinha um espelho que dava uma sensação de profundidade, talvez uma forma de nos mostrar que estávamos para entrar no mundo imaginário de Kafka; estranho pensar que éramos nós refletidas no espelho, e no quanto sua obra reflete o mundo que vivemos atualmente. Dali por diante, são inúmeras as salas que tentam trazer o fantástico de Kafka para a realidade, e isso acontece quando os personagens e as obras ganham vida em imagens, objetos, tato e sons. Na penumbra, imensos arquivos de granito preto a refletir a nossa face, em cada gaveta os nomes dos personagens de Kafka repetem-se, existentes numa grande sala-corredor que vai dando voltas – em alusão à sua crítica ferrenha à burocracia – Telefones, nas esquinas da sala-corredor, tocam continuamente, ao atendê-los, ouvimos falas dos seus personagens, de modo a nos transportar para o seu mundo.


Museu Kafka - arquivos e telefone

Museu Kafka - arquivos que nos refletem

Da sufocante burocracia, passamos para uma projeção em uma sala de espelhos que multiplicam os devaneios kafkianos, para voltarmos à penumbra, dessa vez em tons vermelhos e ambientada por gritos sufocados. A máquina da obra “Na colônia penal” estava ali, com o corpo do personagem preparado para receber a inscrição do crime o qual era acusado. Da mesma obra, conseguimos espiar por um orifício o vídeo com a condenação sendo inscrita no corpo, a pele cortada de forma precisa, primeiramente em traços horizontais e depois verticais, para no fim formar as palavras já borradas pelo sangue que escorria. De fato, o museu conseguiu captar a realidade de algumas das principais obras do escritor.


Museu Kafka - a máquina da obra "Na colônia penal"

Museu Kafka - foto do vídeo com a inscrição do crime
 em referência à obra "Na colônia penal"

No último dia, resolvemos errar pela cidade, mesmo assim nos deparamos com Kafka em nosso caminho. Chegamos até à ponte com a belíssima vista que ele tinha quando escreveu “A Metamorfose”, pois hoje o prédio onde ficava não existe mais. E por último, chegamos ao Café Kafka, que fica na casa onde nasceu, apesar de só a entrada ser original dos tempos em que permaneceu ali.


Vista do escritor ao escrever "A Metamorfose"

Quem leu os livros de Kafka encontrará sua obra na cidade labiríntica – literalmente – de ruas estreitas e passagens insólitas; no Castelo e, para o mais atento ou medroso, quem sabe a encontre na ausência de baratas, que talvez também tenham desaparecido quando da morte de Gregór Samsa. Mas não encontrará Kafka, por mais que a cidade o homenageie. Kafka desapareceu de Praga, tal como os personagens mais importantes ao fim dos seus livros. Kafka é um escritor que não se sente, não se materializa, nem pelas suas fotografias. Porque Kafka é o fantástico. A sua obra é que é realista.


Manuscritos de Kafka


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Rastros de Brecht: o poeta-movimento

Chegar na casa onde Brecht viveu os últimos anos de sua vida foi emocionante. Após 15 anos de exílio, em razão da ascensão de Hitler ao poder, Brecht finalmente conseguiu retornar à Berlim. Não era mais a cidade que deixou. Mas foi na Chaussestrasse, 125 que voltou a criar suas peças de teatro e escrever poesias, além de fundar, bem perto dali, a companhia de teatro ‘Berliner Ensemble’, junto com a esposa Helene Weigel, e que existe até os dias atuais.

Ao adentrar na casa, é perceptível a simplicidade do poeta. Na sala-escritório, os móveis eram bem simples, tal como nos demais cômodos. Foi ali que ele criou parte de sua obra, caminhando por entre as cinco mesas espalhadas pelos cantos, com cinzeiros à espera de seu charuto. Sim, o poeta era movimento, tal como sua vida de intelectual militante; e não foi difícil senti-lo naquele lugar, mesmo após tantos anos. Da janela ao canto da sala, ele observava o cemitério onde hoje está enterrado, próximo ao túmulo de Hegel. No outro canto, sua máquina de escrever, onde datilografava seus poemas e depois os percorria novamente corrigindo-os à caneta. Poemas hoje guardados em um armário de gavetas brancas, protegidos em plásticos transparentes, mas ao alcance da leitura daqueles que lhe visitam.


Brecht no famoso poema “Apague seus rastros!”, escreveu um alerta imperativo aos companheiros de militância política e intelectual que atuavam à margem da lei e também aos moradores das já grandes cidades que não se sentiam em casa, obrigados a viver na metrópole como se fossem exilados ou perseguidos. Mas, após sua morte, seus rastros foram amorosamente mantidos. Como na casa que Helene Weigel fez questão de deixar intocada, inclusive os últimos jornais lidos por Brecht, no criado-mudo ao lado da cama, com notícias suspensas no tempo e nas amareladas páginas. Nos livros das estantes espalhadas pelos diversos cômodos ou nos cinzeiros sobre as mesas, ainda a espera das cinzas de seu charuto.


Para além dos rastros físicos, o mais importante está nas suas peças de teatro e sua poesia contestadora, mordaz, que é continuamente interpretada e reinterpretada em todos os contextos e tempos da história. Brecht entendia que as lutas do ser humano não se resumiam a escolher um lado da moeda. O ser humano, internamente, é dotado de contradições e essas percorrem por toda a existência. Sobretudo, é preciso ter consciência disso. É preciso conhecimento, cultura e fome de saber.

Compartilhar os rastros de Brecht é possível graças à queda do tal império que deveria ter mil anos, orquestrado pelo ridículo ‘pintor de parede’, como o poeta aludia ao insensato líder nazista. Brecht nos dá um olhar – e ação – a contrapelo da história, como tanto discutiu com seu amigo Walter Benjamin, e nos faz pensar nos dias atuais, que teimam em querer voltar a ser sombrios, especialmente em nosso Brasil onde índios são mortos, barracos são derrubados pela ganância imobiliária, presos são decapitados, gente de pele morena e negra é proibida de circular livremente, a polícia, descontrolada, faz suas vítimas por vingança ou por puro ódio. A vitória de Brecht ainda nos traz um fio de esperança: de que ainda é possível o ser humano voltar a ser... humano.

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez, uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranquilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe! Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

(Bertolt Brecht)


Texto publicado no Portal Desacato, de Florianópolis e Blumenews, de Blumenau.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Masculin/Masculin: nudez e violência no Musée d´Orsay


Por Carla Fernanda da Silva/ Sally Satler




Masculin/Masculin[1] nos traz em seus folhetos e releases a promessa de ser a segunda exposição de nudez masculina em Museus, diferentemente da nudez feminina, sempre presente. Porém, se pensarmos nos nus masculinos greco-romanos e da renascença, presentes nas ruas e museus italianos e, também em outros museus como o Louvre, questionamos esta afirmação. O diferencial da exposição seria a reunião de diversas obras sobre o nu masculino, com obras do próprio Musée d’Orsay e emprestadas de outros museus e acervos particulares.  

Para além das belas obras de nu fomos surpreendidas também pela recorrente relação da nudez com a violência, mostrando a representação do erótico masculino intimamente relacionado à guerra. Nesta exposição, além de serem explorados muitos aspectos e significados do nu masculino, alguns dos artistas presentes recontextualizaram o nu heróico a partir de suas épocas e realidades. O objetivo foi claramente estabelecer um diálogo entre as diferentes fases da história a partir do olhar contemporâneo.

Numa referência à obra ‘A Origem do Mundo’, de Gustave Courbet (1866), a artista Courtesy Orlan retratou ‘ A Origem da Guerra’ (1989), destacando um falo ereto, presente no final da exposição, junto às representações da homossexualidade masculina, deslocada, em nossa leitura, por seu significado crítico e reflexivo em relação à história mundial, e não exatamente à erótica homossexual. Esta fotografia nos possibilitou algumas reflexões sobre a exposição e a história do nu masculino, que desde a Grécia antiga, principalmente na estatuária, tem a representação do homem em batalha; ou seja, a construção da virilidade pela violência.

L'Origine de la guerre by ORLAN at FIAC 2012, Paris

Esta obra nos remeteu também uma incômoda continuidade discursiva em que contextos e guerras mudam, mas a representação do homem em batalha permanece: soldados-meninos, reféns do discurso de poder dos ‘senhores da guerra’ que prometem glória eterna a ingênuos Aquiles contemporâneos. A crítica a tal discurso se mostrou mordaz na fotografia do artista David LaChapelle, onde, no paraíso prometido, um belo e jovem muçulmano é amarrado como Gulliver por 72 virgens, representadas por barbies em burcas coloridas; não mulheres, mas bonecas seriadas e vazias, como as promessas dos líderes religiosos e políticos que levaram e ainda levam muitos muçulmanos à guerra e, muitas vezes, ao suicídio como homens-bombas. A nudez e a sensualidade do jovem árabe são provocativas, tanto por ser a antítese dos corpos cobertos e os tabus em relação à sexualidade do mundo muçulmano, quanto pela certeza de que apenas uma morte violenta fará que este homem alcance o seu paraíso prometido.

 
Would-Be Martyr and 72 Virgins (2008). David LaChapelle

Após sair do Musée d’Orsay, atravessamos o Jardin des Tuileries com suas árvores desfolhadas à espera da neve, oferecendo-nos uma paisagem lúgubre como a nossa incômoda reflexão sobre a exposição Masculin/Masculin e a associação perene entre o erótico masculino e a violência. Courtesy Orlan é precisa na reflexão que expõe em sua foto, mesmo assim as pessoas continuam a chocar-se diante do falo ereto e de sua promessa de prazer, ao invés de pensar sobre a provocação filosófica contida no título ‘A Origem da Guerra’, na manipulação do desejo de jovens homens para que velhos homens satisfaçam seu desejo de poder e riqueza.

"La douche. Apres la bataille".
Russian artist Alexendre Alexandrovitch Deineka

Ao finalizarmos este texto, questionamo-nos como seria uma exposição do nu masculino em que o apelo à guerra e ao herói em batalha fossem excluídos, em que a virilidade não estivesse relacionada à violência – que tantos problemas causam –, mas  sim um erótico com outras referências, em que o desejo e o corpo masculino fossem representados no simples cotidiano mundano da busca do homem por si mesmo, como nas obras de Paul Cézanne, Schiller, Cadmus, entre outros.


domingo, 1 de dezembro de 2013

O estranho ‘causo’ da igreja abandonada


Foto: reprodução

Um domingo desses saí para um pedal com algumas amigas, partindo de Blumenau para Indaial, na região do Encano. É um lugar lindo, estrada de chão, muita área verde com aquelas ‘casas de vó’, ótimo para pedaladas tranquilas e paradas para contemplar e fotografar.  

Num desses bate-papos o assunto foi uma igreja no Encano, abandonada no meio de uma imensa área verde, que desperta a curiosidade de muitos, pois há poucos metros foi construída outra igreja, nem tão maior, e muito mais sem graça que esta antiga igreja abandonada.

Logo uma amiga me confidenciou o mistério, contado a ela por um conhecido que soube através de seus parentes que moravam na região.

“Guria, tu não sabes a história dessa igreja? Chega a me dar arrepios quando passo por ela, uma coisa ruim” – me confidenciou com aquela expressão assustada. “Foi na década de 40, parece que o padre engravidou uma das moças da comunidade, que era noiva de um rapaz daqui. Quando apareceu a barriga, ela teve que contar tudo para o noivo”.

“E o que aconteceu?” – Perguntei.

“O noivo, enfurecido, entrou na igreja e matou o padre e a noiva, depois se matou com um revólver.” – E como quem comenta sobre o prato do almoço, continuou. – “O túmulo do padre fica bem ao lado da igreja”.

“Mas isso é verdade mesmo?”

“Não sei, os antigos daqui só dizem que a igreja foi abandonada porque compensava fazer outra nova ao invés de reformá-la. Mas um amigo entrou na igreja para fotografar, e disse que tudo parece estar intacto, não havia nada que indicasse risco de desabamento.”

Esta semana passei pela igreja novamente e senti um calafrio ao lembrar do suposto assassinato e suicídio que aconteceu lá dentro. Mas estou criando coragem para entrar nessa igreja e investigar os seus mistérios... Quem sabe?

Aos nossos vizinhos de Indaial, eu pergunto: esse ‘causo’ é ou não uma lenda?

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O dia em que os negros orixás chegaram à casa da Edith Gaertner

Por Sally Satler / Carla Fernanda da Silva


Foto: Sally Satler

Foi na segunda (18/11/2013), início da noite. Atraída pelo som de pandeiros eu vi, dentro da casa de Edith Gaertner, os negros orixás com suas vestes. As imagens de Congás, do pai-de-santo e ekédjis, de caboclos, pretos-velhos, oguns e iemanjá espalharam-se pelo Museu da Família Colonial.

No quintal, corpos negros jogavam capoeira, animados por músicas negras e berimbaus. Dava para sentir as entidades, negros e negras que já viveram em Blumenau, foram tantos e tantas, invisíveis aos olhos da história.

Ao meu lado, eu vi e ouvi a negra Bertilha[i], falando para Avandié[ii]:

“O nosso dia chegou, demorou demais, mas chegou. Teve que ser de mansinho e sutil. Muitos que aqui estão não conhecem nossa história, porque não nos deixaram contar”.

“Vamos gritar pra eles ouvirem, então!” – disparou Avandié, com o jornal “The Colored” em punho, bem vestido, com seu terno impecável e sapatos lustrados.

“Te assossega, homi. Senão eles se assustam! É bem devagar que eles saberão. Vamos assoprar no ouvido dessas pessoas que estamos felizes e aqui queremos ficar, pois também é o nosso lugar ”.

E ao som dos pandeiros e berimbaus as pessoas começaram, timidamente, a cantar:

Foge o nêgo sinhá
Oiá iá iá ía
Traz o nêgo sinhá
Paranauê, paranauê paraná
Paranauê, paranauê paraná

Abro e fecho os olhos, quase sem me acreditar ao ver negros corpos em sua dança mágica neste jardim, há tanto tempo colonizado. Hipnotizada pelo ritmo dos corpos e da música, sinto que ainda falta muito para conhecermos a história e as memórias daqueles negros que viveram/vivem e sofreram/sofrem aqui em Blumenau.

Com a palavra, os nossos historiadores!




[i] Bertilha da Rosa faleceu em 1986, atropelada por um ônibus em frente ao Corpo de Bombeiros de Blumenau. Pouco sabemos de sua história, apenas que em algum momento de sua vida enlouqueceu, e entre os internamentos na antiga Colônia Santana, perambulava pelas ruas de Blumenau. Nunca caminhava nas calçadas, sempre nas sarjetas das ruas, falando sozinha e com uma pedra na mão, como quem tem medo da sociedade onde vive e dela procura se defender. Ela também é personagem recorrente nas obras do escritor afroblumenauense José Endoença Martins.

[ii] Avandié foi um dos principais líderes negros da região, criou em Blumenau a UCHIC – União Catarinense dos Homens de Cor, em 1962. A UCHIC ficou ativa até os anos 1980, promovendo congressos, campanhas educacionais, palestras e concursos de beleza. Também publicou o jornal “The Colored”, em edições que contavam sobre o cotidiano dos negros no continente africano.  

* Esta crônica foi publicada no Portal Desacato, de Florianópolis e no Portal Blumenews, de Blumenau.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Vamos ouvir nossos muros!


Quando o portal ‘catraca livre’ escreveu há alguns meses que os muros falam e deveríamos ouvi-los, despertou-me a curiosidade. Que muros são estes, afinal?

Resolvi prestar atenção nos muros de Blumenau e a primeira coisa que percebi é que muitos dos muros que lembrei que tinha alguns escritos foram limpos, numa campanha de higienização e esquecimento das reivindicações de tantos blumenauenses. Enquanto isso, a poluição visual das marcas publicitárias nas cidades é normalizada, bem longe de ser entendida como ato de vandalismo.

Uma inscrição no muro nos interpela e às vezes exige uma resposta, podendo nos convocar também a uma autocrítica. Como já alertou a filósofa Márcia Tiburi, a revolta da sociedade contra a pichação/inscrição advém do ideal de limpeza estética, da brancura ou do liso dos muros, numa “sacralização que faz da pichação o demônio”, dificultando assim outras leituras. O grito impresso nos muros também pode ser “a irrupção do insuportável”, numa “tão assustada quanto autoritária sociedade civil analfabeta” (politicamente analfabeta).

Fazendo uma incursão por algumas ruas de Blumenau, fotografei os escritos e também busquei imagens já registradas por outras pessoas. O resultado está aí: os muros da cidade nos dizem muito. Vamos ouvi-los!


(Rua Max Hering)

Essa frase desalinhada, talvez por ter sido escrita às pressas, nos convoca a pensar na forma que estamos (sobre)vivendo: a rotina que nos é imposta pelo sistema e que aceitamos servilmente: produzir para consumir. Numa cidade que ainda acredita ‘que o trabalho dignifica o homem’, faz-nos refletir sobre as imposições do mundo do capital que dia após dia mortifica o ser humano na sua rotina trabalho-casa-trabalho e o silencia em doses diárias de TV e fluoxetina. E você, vive? Vive o lazer, a arte e cultura de sua cidade? Aproveita suas praças e ruas? Tem seus momentos de lazer com a família num calmo passeio pelos parques? Consegue ter o seu tempo para ir a uma apresentação musical ou teatral? Já levou seus filhos nos museus da cidade? Qual foi o último livro que leu e perdeu-se no mundo de fantasia e reflexões? Ou você apenas sobrevive para manter o Sistema?



(Rua Heinrich Hosang)

Já escrevi muito sobre como pedalar mudou minha vida. O prazer do vento no rosto, sentir na pele a memória da infância e no presente a liberdade. Sentir que naquele momento em que você está pedalando: o tempo, a vida, os pensamentos são apenas seus; é um instante de encontro consigo. A possibilidade de redescobrir a cidade, exatamente como quando saí de bicicleta para tirar as fotos que agora ilustram este texto. Encontrando os pequenos detalhes das ruas, a bicicleta nos devolve o direito à cidade, o prazer de contemplar uma pequena flor ou um detalhe despercebido da arquitetura, revivendo um cotidiano que a rotina de trabalho nos surrupiou. Nesta imagem há uma convocação à simplicidade da vida: andar de bicicleta e amar.


(Rua Heinrich Hosang)

Esta frase nos convoca a pensar como um grande evento (copa do mundo) está influenciando diretamente na vida de comunidades carentes, que pouco a pouco estão sendo removidas compulsoriamente de seus lares (como aconteceu com a aldeia maracanã e outras localidades) - fruto de especulação imobiliária disfarçada de melhorias para as cidades, tudo com respaldo estatal. Por que a vida, a dignidade humana, vale menos que o capital voraz de empreendimentos imobiliários ou um evento de copa do mundo? Vale lembrar que os inúmeros conflitos vivenciados no Rio de Janeiro é reflexo direto dos gastos excessivos com a copa, ao mesmo tempo em que a população continua andando em transportes públicos deficitários e vergonhosos, os professores continuam com salários baixíssimos e as escolas em situações precárias. E, ainda, temos o caso do servente de pedreiro Amarildo, desaparecido após uma sessão de tortura praticada por policiais da UPP. E os políticos? Bom, Sérgio Cabral continua morando muito bem no Leblon.





Talvez esse seja o mais difícil de analisarmos num primeiro olhar, dada a complexidade filosófica do mesmo. Aqui os autores fazem uma defesa da vida animal, ao mesmo tempo em que condenam as experiências de laboratório com animais não-humanos, e também defendem a alimentação vegetariana, levando em consideração todo o processo de violência que os animais são submetidos em fazendas, granjas e etc., para sustentar a alimentação humana com base na carne. O preconceito de espécie a que se referem é o fato de humanos considerarem os animais não-humanos inferiores e com base nisso, infligir-lhes dor e sofrimento.


(Rua Antônio da Veiga)

A frase e o desenho trazem uma crítica direta à sociedade de consumo, mostrando a cegueira do indivíduo pelo desejo de consumir objetos e marcas. A pessoa que sobrevive, como naquela primeira pichação, é também aquela que consome e trabalha para manter o seu consumo. Todo este ciclo conduz unicamente ao bem-estar de poucos, donos das grandes empresas e políticos corruptos. Para além do consumismo, o estêncil exorta para buscar nas relações e nos pequenos prazeres cotidianos o Valor do bem viver.


(Rua Antônio da Veiga - passarela)

Esta frase, grafada na passarela da FURB, traz uma convocação à necessidade de pensar além do senso comum, além do que nos é transmitido pela mídia de massa. Como no Brasil já se passaram décadas de informação sem reflexão, parece que perdemos a capacidade de pensar com a própria mente, andar com as próprias pernas e enxergar além do que nos é transmitido pela tela da TV.


Muro da FURB: novamente a reflexão sobre o quanto
é importante pensar além do capital.


(Muro da FURB)

Essa outra imagem mostra-nos uma crítica à mercantilização do ensino e do saber, que implica invariavelmente na impossibilidade de pensar além. O conhecimento tornou-se ‘moeda’ especialmente em países em desenvolvimento, como o Brasil, e o ensino superior e médio são cada vez mais ditados pelos padrões de qualidade exigidos pelo mercado de trabalho, cujo objetivo é a formação em nível técnico. O ensino a serviço do capital e das leis de mercado nos impossibilita o desenvolvimento da criticidade, o crescimento humano, pessoal, ético e ir além do senso comum.

(Rua Timbó)

Da Europa temos tido notícias constantes do retorno do nazismo, tristes conceitos que achávamos debatidos e para sempre excluídos como possibilidade política, mas que infelizmente sempre retornam com atitudes fascistas e comentários saudosistas. Aqui o muro relembra o terrível erro do passado, enquanto em páginas de papel e em mensagens virtuais, ou mesmo em cédulas de votos, tentam acordar o antigo ideário de exclusão.


(Rua Timbó)

Aqui nesta mensagem, faz-se uma apologia à perda de juízo: ousar mais, sair do que nos é ditado como ‘politicamente correto’, ‘padrão’, a fim de tornar a vida mais alegre e com algum sentido.


(Rua Timbó)

A crítica à mídia de massa e a monopolização dos meios de comunicação nunca foi tão evidente como na era de redes sociais. Esse desenho é dirigido especificamente à rede globo, que já distorceu muitos fatos na história - apoiou a ditadura e agora pediu desculpas (como estratégia de marketing) – e continua fazendo o mesmo, como nos manifestos/protestos de 2013.

Praça Dr. Blumenau: protestando por mudança.


(Rua das Palmeiras)

No muro que fica bem ao lado da Câmara de Vereadores, podemos ver a reivindicação pelo passe livre, bandeira sustentada pela necessidade de mudança no direcionamento dos investimentos públicos (gasta-se milhões/bilhões em pontes, viadutos e rodovias, mas não se investe em transporte coletivo gratuito e de qualidade, que a curto e médio prazo trariam resultados mais eficientes).



(Centro. foto: Marcos Boeira/divulgação)

Essa imagem eu trouxe para o texto por ser bastante significativa pra Blumenau, que desde a desativação das lombadas eletrônicas e redutores de velocidade vem apresentando índices alarmantes de acidentes e vítimas no trânsito. O carro atravessando um muro de Blumenau nos escancara o quanto as pessoas estão impacientes e violentas no trânsito caótico tomado por carros. Mesmo assim, não existem investimentos reais em mobilidade urbana alternativa e na construção de uma cidade para as pessoas.


Muro da FURB: uma opinião.

Muro da FURB. Resistir, sempre!

Av. Martin Luther (foto: Eduardo Abel)

Numa intervenção intitulada “Mais arte, por favor!”, artistas de Blumenau pintavam um muro abandonado, sujo e desgastado da Av. Martin Luther, quando foram interpelados pela polícia e um deles foi autuado. Isso porque os motoristas que ligaram para a PM, os denunciando como ‘vândalos’, foram treinados midiaticamente para isso: a denunciar tudo, também a arte, a escrita... a reflexão e a crítica.


Rua São Paulo, autor desconhecido).
Eu preciso comentar esta?

Para finalizar, façamos os seguintes questionamentos: Neste mundo, quem ganha e quem perde com a higienização e o silenciamento dos muros? A quem interessa qualificar todas as pichações como vandalismo e a poluição visual das marcas publicitárias como normal e legítima? 


* Esse artigo foi publicado no Portal Desacato, de Florianópolis e no Portal Blumenews, de Blumenau.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

OPINIÃO: A crítica libertada


Uma paródia à OPINIÃO DA RBS:  “A crítica sufocada”, 
publicada no SANTA de 31/10/2013*

O governo argentino ganhou muito na luta contra o monopólio da mídia ao enquadrar o Grupo Clarín na chamada Lei de Meios, agora com o aval da Suprema Corte do país. Na legítima pretensão de democratizar os meios de comunicação, a legislação estrutura e fortalece a liberdade de expressão, eis que o principal grupo do país que detém hoje o monopólio da comunicação passará a ter que disputar e aceitar que outras empresas de comunicação tenham o direito de (in)formar opinião, tanto a favor, como contra o governo e interesses da Casa Rosada.

Esse avanço segue a lógica de regimes que desejam conviver com a liberdade de expressão. Por isso, a situação argentina não pode ser vinculada num contexto de democracias autoritárias, seja de qualquer país do mundo, ainda que meios de comunicação monopolistas utilizem de artifícios falaciosos para ludibriar e vender essa notícia como golpe. A concorrência do setor na Argentina (como no Brasil) tem sido alcançada pelas novas mídias virtuais e tentam desafiar modelos consagrados, mas encontram dificuldades financeiras e sofrem com falta de estrutura para produzir e transmitir informação, situação bem diferente das empresas que detém o monopólio da comunicação.

O grupo Clarín, numa tentativa desesperada, avalia recorrer a cortes internacionais como último recurso para manter o seu monopólio. A tentativa de democratizar a imprensa e os meios de comunicação certamente vai provocar prejuízos econômicos a grupos empresariais monopolistas como esse, mas garante ao povo o acesso à informação de todas as vertentes políticas e garante a todas as mídias, inclusive virtuais, a sobrevivência e liberdade de atuação em pé de igualdade com quem hoje detém monopólio. Isso deveria acontecer no Brasil também.




Esse artigo foi publicado no Portal Desacato, de Florianópolis e no Portal Blumenews, de Blumenau.