segunda-feira, 28 de abril de 2025

Praia da Península

 

Chegamos naquela velha ponte pênsil de Barra Velha bem no início da tarde. Não tem como não rememorar a infância... pescar siri com pulçá e jogar vôlei eram dos meus passatempos prediletos nos verões que passei ali. A casa da vó Ester não existe mais...
E a velha ponte também está interditada para pedestres. Restou olhar para o outro lado e ver a imensidão do mar da praia da Península. Pegamos as cadeiras e a cuia de chimarrão... com mate e ervas de capim-limão e hortelã.



E que surpresa linda! Pescadores enfileirados de frente para aquela misteriosa neblina do mar. Ouvir o silêncio, as aves cantando e as ondas quebrando... como eu amo o outono no mar! Um raro momento de poesia visual ❤️


Praia da Península, Barra Velha, em 08/06/2024.




Caruaru e os artistas de Alto de Moura


Caruaru é uma cidade do agreste pernambucano, famosa pelas suas feiras e festa de São João.
Nas feiras (artesanato, comidas, roupas, couro, etc.), compramos muitas frutas e algumas comidinhas regionais, além da massa de tapioca recém pronta de uma das diversas barraquinhas da feira de tapioca. A mandioca foi ralada no mesmo dia, ali nas barracas, e depois cozida. Ao virar goma, as mulheres já peneiravam em cima da mesa. Também compramos uma sandaliazinha de couro toda colorida para a menina Gaya, que fará 1 aninho no fim deste mês. 🥰



Partimos p/ o Museu Luiz Gonzaga, mas estava fechado. Seguimos p/ o bairro Alto de Moura, grande centro de artes e peças feitas em barro, inspiradas nas crenças populares, em cenas do universo rural e urbano, no cotidiano, nos rituais e no imaginário do povo do sertão nordestino. 



Conhecemos a casa do Mestre Vitalino, artesão, ceramista popular e músico, considerado um dos maiores artistas da História da arte do barro no Brasil. Nasceu em 1909, filho de um lavrador e de uma louceira, que fazia panelas de barro para vender na feira. Começou a fazer escultura de cerâmica ainda criança c/ as sobras do barro usado por sua mãe. Tornou-se conhecido no mundo e sua arte influenciou na formação de novas gerações de artistas, principalmente no Alto do Moura, c/ diversos ateliês no entorno de sua casa.



Logo em frente tem o ateliê do falecido mestre Galdino, outro importante ceramista/artesão, cantador de viola e poeta de cordel. Foi o maior ateliê que conhecemos e ali comprei uma escultura, que também vai servir de abrigo para uma das minhas suculentas.




Depois seguimos p/ conhecer alguns artesãos que estavam naquele momento moldando e pintando nos seus ateliês. Primeiro de um grupo de cooperados, depois outros ateliês menores, e por último o da artesã Ítala e suas parceiras e parceiros, inclusive um gatinho que fazia companhia, aconchegado no espaço de modelagem.







Além das peças dos ateliês serem lindas, o que surpreendeu muito foram os preços, praticamente simbólicos.
Saímos dali encantadas c/ Alto de Moura e as peças que levamos.
Vida longa aos artistas de Caruaru!

Caruaru, 16 a 18/01/2024.

Ela e o mar

 

Caminhando devagar...
Observo. Ela sem rumo no olhar.
Nenhuma palavra.
Apenas (com)paixão.
Chegando, deixamos nossas coisas no salva-vidas.
Passos mais lentos, rumo ao mar, para o final das ondas.
Ela olha para trás, buscando-me.
Com meu olhar, ela entende que precisa seguir.
Alcançando-a, eu a tomo num abraço... e, com alguma sutileza, eu canto o ponto que aprendi.
'Descarrega, descarrega Ogum,
ó leva pras ondas do mar...'
O mar lava e também pode ensinar.
A remar, a nadar e a nos salvar.


Praia de Gravatá, Navegantes, em 24/02/2024.




As marisqueiras de Porto de Pedras


Passava das 9 horas quando partimos para a balsa com destino a Porto de Pedras... maré estava baixa, é quando as marisqueiras aparecem para coleta de mariscos no Rio Manguaba... que no sul chamamos de berbigões.
Logo que chegamos conhecemos Dona Fátima, 67 anos, marisqueira desde criança, sempre trabalhando de sol a sol. Um pouco tímida, pedi licença para sentarmos ao seu lado no rio, ajudando na coleta. Logo foi explicando como catar, escolher, depois lavar e limpar. Estava com 2 baldes, 1 deles já bem cheio, disse que 1 balde e meio rende 1 kg sem conchas e vende limpo a 40 reais. Fica 4 horas coletando, até a maré voltar a ficar alta. Foi assim que criou 7 filhos, 5 são professoras formadas, disse ela com uma ponta de orgulho.
Confidenciou que mais pra frente poderíamos encontrar um pouco maiores, que não consegue ir até lá porque é pesado carregar 2 baldes cheios na volta...
Agradecemos e seguimos até um pouco antes da praia de Porto de Pedras. No caminho parei pra conversar com a Dona Sebastiana, que logo foi me ensinando como fazer a iguaria no leite de coco natural. Menina, põe cebola, coentro, pimenta de cheiro, pimentão, legumes, tomates. Raspa aquela carne do coco, bate no liquidificador. Anotado mentalmente, seguimos. Mas não sem dizer a ela e sua amiga que achei ótimo elas usarem grades de ventilador para lavar e escolher os maiores berbigões.
Quase 1 hora de coleta, caiu a maior chuva. Acode mochila, celular, bolsa térmica. Catei 1 cascão de coqueiro, cobri com uma canga e seguimos insistindo, porque turista que é turista tem que ir até o fim... rsrs. E digo que valeu muito, porque, de fato, o ponto indicado pela Dona Fátima rendeu os maiores berbigões que pegamos! Eu já estava ansiosa pra chegar em casa e preparar a receita da Dona Sebastiana.
Branquela que sou, mesmo sem muito sol e com muito protetor solar, fiquei vermelha nas pernas, mas muito feliz por dividir o dia com essas mulheres que fazem acontecer.

Porto de Pedras/AL, 11/01/2024.




Não era pra ser hoje

Quase 21h. Vou ou não?

Segui. Asfalto, seguido de estrada de chão sinuosa e esburacada.

Chegando, a rua cheia de carros, estacionamento lotado. Manobro pra voltar e procurar lugar na rua.

Guiando lentamente, sinto encostar no primeiro carro da fila. Puuuutz!

Olho pelo retrovisor e alguém desce.

Parei no meio da rua. Naquela penumbra escura, com chuva e névoa, também desci.

- Acho que encostei no seu carro, perdão!

Olhar atento, fixado nos meus olhos.

Observo, encosto no seu pára-lama (que mal dava pra enxergar) e ele logo diz:

- Acho que foi pouca coisa, pode seguir.

Olhos dele fitados e tranquilos.

Agradeci e pedi desculpas de novo, desviando o olhar.

A intuição com aviso estavam ali... para eu não ficar.

Não era pra ser hoje.

Sabe-se lá o quê, mas não era.

 

Encano Alto, Indaial, em 07/12/2024.




D. Maria de Quipapá

Conheci dona Maria aqui perto de casa tem mais de 1 ano... logo virou minha costureira para pequenos consertos, regados a uns bons papos, ali no início da João Pessoa. Mulher um pouco sisuda, mas nada que 2 dedos de prosa já não solte um sorriso largo. 

Semana passada, levei uma jaqueta de couro que já estava mais pra cemitério do que pra uso. Ela foi dando jeito com a sua Singer de ferro, enquanto conversávamos sobre a vida. Usou a linha azul, ficou embolado, não gostou. Descosturou e refez a gola. 

Dona Maria teve 10 filhos. A vida era bem mais difícil, conta ela. 

Um dos partos foi dentro de um canavial e outro numa caieira de fazer carvão, este último sozinha. Locais que trabalhou duro, lá em Quipapá mesmo, entre Garanhuns e Caruaru, no agreste pernambucano. Eu comentei que passei por estas cidades quando viajei pelo Sertão no ano passado, aí ela abriu a vida. 

Era de dia na agricultura e à noite com as criaturas, minha filha. Minha única menina morreu logo após o parto. Dois meninos também já se foram. Os outros rapazes estão espalhados. São Paulo, Praia Grande, Blumenau. Só um deles ficou em Quipapá. 

Com 67 anos, já tem 17 netos e 1 bisneta. 

Chegou em Blumenau em 2019 pra tentar o serviço de costureira, profissão que já seguia lá em Pernambuco. Foi embora na pandemia e voltou em 2021, quando um dos filhos arrumou emprego num restaurante daqui. Menina de Deus, lá não tem serviço, não. Agora num volto mais, disse ela. 

Ao terminar a jaqueta (e a nossa prosa), copiei o pix que estava escrito à caneta num papel colado na parede. Agradeci e pedi uma foto nossa, disse que ia contar um pouquinho dela e divulgar seu trabalho. Gostou da ideia e logo posamos juntas. Nos despedimos com ela dizendo que eu devia vir mais vezes: 

- Vá com Deus, minha filha! 

Ah, eu vou sim, D. Maria! 

Post Scriptum: A sala da d. Maria - com a máquina de costura e um pequeno brechó - fica ali na rua João Pessoa, em frente à Uniodonto. Precisando, é só chegar ☺️

Blumenau, em 17 de abril de 2025.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.


Por meio da interpretação de diversos mitos e histórias, este livro quase que nos impõe uma busca pela nossa essência, bem como, uma compreensão da natureza da vida-morte-vida em todas as nossas fases. Propõe o reencontro e a valorização da intuição que aos poucos foi perdida nos nossos cantos internos e precisa ser novamente ativada. Também descreve a necessidade da busca da mulher selvagem, que se encontra no rio abaixo do rio, na floresta e que vai nos alimentar, libertar e fortalecer para as experiências e vivências no mundo material. 

As histórias contadas e interpretadas por Clarissa, como mencionado no Podcast “Talvez Seja Isso” (o qual recomendo fortemente ouvir em paralelo com a leitura do livro), “nos ensinam lições brutais, mas muito verdadeiras, sobre o processo de se tornar quem a gente é: existe maldade no mundo (e também dentro de nós); se alguém te oferece um caminho mais fácil, ele não necessariamente te leva pra onde você quer ir; somos responsáveis por nossas más escolhas. Esta é uma conversa sobre o que acontece com uma mulher que não luta pela própria liberdade. Ela se deixa domesticar, se esforça para ser bem comportada e acaba perdendo seus instintos. Nos mostra que qualquer tentativa de domesticar a natureza selvagem é perigosa. Quando a gente fica enjaulada por muito tempo, perde a capacidade de farejar aquilo que queremos “de verdade” e corremos o risco real de cair em armadilhas que ameaçam a nossa autonomia, nossa sanidade e, principalmente, nossa capacidade de saber o que é melhor para nós.”

Este livro nos ajuda a compreender muitas coisas, mas também não quer dizer que devemos nos limitar ao que está escrito nele. Apesar de propor um caminho, deve-se ter em mente que este caminho é ainda mais longo, partindo de uma compreensão de si, da necessária busca do autoconhecimento, para uma compreensão sistêmica da sociedade patriarcal e de valorização das lutas sociais do feminismo.

Link para o podcast "Talvez seja Isso": https://open.spotify.com/show/5qXDd2PdCgVOj8UrQYMly1 

#dicadelivro

terça-feira, 17 de maio de 2016

Não é só por uma árvore, é pela cidade. Precisamos de uma ação anulatória urgente!


Nesses tempos em que precisamos defender o óbvio, relutei muito em escrever sobre a figueira que luta, com a ajuda de muitas pessoas, para manter-se viva na Rua Heinrich Hosang, em Blumenau. Mas é necessário. É urgente.

O Ministério Público firmou termo de ajustamento de conduta (TAC) com a construtora Torresani, com o Condomínio Porto Real e o Município de Blumenau, a fim de garantir a metragem mínima de passeio público para os pedestres passarem na frente do Condomínio. E a solução para a regularização, pasmem, foi determinar a morte da árvore que está ali há mais de 40 anos. Não foi cogitada a adequação da construção, possivelmente porque a construtora não quer arcar com os custos disso. E pouco importou aos envolvidos que a Construtora tivesse ignorado completamente em seus projetos a figueira ali existente. 


Foto: Portal Cidade Plural – www.cidadeplural.com.br

Mas o que a Promotoria, a Construtora, o Síndico do prédio e a Prefeitura não contavam era com as pessoas, os coletivos e as entidades que estão resistindo a essa solução vexatória. Um grupo foi ao Ministério Público e à Prefeitura para tentar reverter a ordem de corte, que restou, com o perdão do trocadilho, infrutífera. Sabemos que a ABC Pró Ciclovias fez pedido por escrito de reconsideração ao Ministério Público, nos autos do Inquérito Civil. Mas já sabemos também que não podemos contar apenas com a ‘sensibilidade’ da Promotora Monika Pabst.

Por isso, entendo importante e urgente que as entidades de Blumenau que lutam por causas ambientais e urbanísticas, busquem anular esse TAC judicialmente. É possível sim, ajuizar ação de anulação do termo de ajustamento de conduta contra todos os que firmaram o TAC, inclusive o Ministério Público e o Estado de SC - como pessoa jurídica atrelada ao MP - pedindo também uma tutela de urgência (medida liminar), a fim de impedir o corte da árvore até a decisão final da ação anulatória.

Um TAC não pode servir de alvará para agredir outros interesses coletivos/difusos. As árvores não podem mais ficar marcadas para morrer em tempos de escassez de área verde, como é o caso da região central de Blumenau, que sofre com temperaturas de mais de 40 graus no verão e com o excesso de gás carbônico. Existem alternativas de regularização, como ampliação do passeio, deslocamento de equipamentos do prédio, etc.  E quem construiu e lucrou, que arque com isso. Precisamos romper paradigmas, caso contrário, não sobrará uma única árvore de grande porte na região central da cidade.

Não é só pela árvore da rua Heinrich Hosang que escrevo. É pelo que esta árvore simboliza. Por essas pessoas que estiveram e ainda estão alertas ao seu lado, lutando para que a cidade não se defina somente por concreto e ferro, calor e gás carbônico. É por uma Blumenau mais humana, mais agradável, com mais árvores, parques, passeios regulares, com transporte público de qualidade e ciclovias interligadas. 

É para defender o óbvio. (Que tempos, Brecht! Que tempos!)








Foto: Michel Imme


Artigo publicado no Cidade Plural (Blumenau) e Portal Desacato (Florianópolis).

Saibam mais no clipping feito pela ACAPRENA:
Sobrevida para a Figueira da Heinrich Hosang
O corte previsto para quarta, 10/05/2016, foi impedido por manifestantes que cercaram e subiram na árvore. Prefeitura, Torresani e condomínio aguardam reunião com promotora Dr. Mônika Pabst, responsável pela suspensão temporária do corte da figueira. Confirma as reportagens e o TAC na íntegra:
Prefeitura tem desde 2015 projeto que amplia a calçada e salva a figueira do corte, afirma Carlos Tonet: 
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=992537510794136&set=a.202712146443347.44332.100001136905239&type=3&theater
Figueira do Victor Konder: comunidade faz vigilância
Figueira do Victor Konder e as lições para Blumenau
Manifestantes impedem corte de árvore no Victor Konder em Blumenau
Arquitetura protagoniza suspensão do corte da figueira
Manifestantes conseguem que promotora suspenda  temporariamente o corte da figueira
Pancho: Decisão de cortar árvore está mantida, só não se sabe quando será feito
Figueira do Victor Konder: não é pela árvore, é pela cidadania
A culpa é minha
Confira o TAC – Termo de Ajustamento de Conduta:

Saibam mais sobre a possibilidade de ação anulatória:
A invalidação do Termo de Ajustamento de Conduta, por Marcos Pereira Anjo Coutinho, Promotor de Justiça de MG, Pós-graduado em Controle da Administração Pública - Universidade Gama Filho/RJ. Pós-graduado em Tutela dos Interesses Difusos,
Coletivos e Individuais Homogêneos - Unama/AM:

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O muro do impeachment

Sobre o muro instalado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, a palavra e sentimento de “vergonha” resume tudo pra mim. Este muro não foi construído com placas de metal. Ali está todo ódio e raiva, insana e irracional, toda dicotomia rasa e superficial do bem contra o mal. Este muro diz muito mais sobre nós, povo brasileiro, do que sobre aqueles que habitam o Congresso e o Alvorada. Suas bases estão tão firmes, que sua desconstrução poderá levar décadas. E aqueles que nos assistem, de qualquer outro país que já passou por algo assim ou pior, pensam e dizem ‘como que ainda não aprenderam’?

Como que ainda não aprendemos???

Crédito da foto: Dida Sampaio



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Qual crítica é importante no decreto de saque do FGTS - desastre de Mariana/MG?


Muitas pessoas estão compartilhando nas redes sociais a discussão sobre o decreto que a Presidente Dilma editou a respeito do saque de FGTS nesse momento do desastre em Mariana, entendendo equivocadamente que estar-se-ia isentando a Vale/BHP/Samarco de responsabilidades ao colocar no decreto a expressão “desastres naturais”.

A lei 8.036/90, que dispõe sobre o FGTS, determina que o mesmo pode ser sacado em caso de “necessidade pessoal, cuja urgência e gravidade decorra de desastre natural, conforme disposto em regulamento” (art. 20, XVI). O decreto 5.113/ 2004, por sua vez, regulamentou o saque de FGTS em decorrência de desastres naturais, mas não constava o tipo “rompimento de barragens”, o que impossibilitaria o saque pelos afetados em Mariana; assim, esta inclusão pelo decreto 8.572/2015 serviu para possibilitar o saque pelas vítimas de rompimento de barragens.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que o rompimento daquelas barragens vai ser considerado desastre ‘natural’, para fins de responsabilização das empresas por negligência. Não é possível um decreto excluir responsabilidades civis ou por crimes previstos em lei.

A crítica que considero relevante é o fato do FGTS ser utilizado nessas situações de desastres causados por terceiros (não naturais, portanto). No caso, as vítimas utilizarão seus recursos pessoais de FGTS para compensar perdas causadas pela Mineradora Vale/BHP/Samarco, quando o correto seria determinar uma multa administrativa maior à Mineradora, para ser repassada imediatamente aos atingidos, a fim de compensar suas perdas mais urgentes. O FGTS dos atingidos não deveria ser utilizado para isso (desastres não naturais), pois além de manifestamente ilegal, é injusto repartir com as vítimas os custos desta tragédia.


Foto: globo.com

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Operação Zelotes e a Juíza Célia Bernardes


Conheço a Célia desde a faculdade e a considero uma grande amiga; quem a conhece sabe de sua integridade como pessoa e juíza. Além de carinho e amizade, tenho uma imensa admiração por seus posicionamentos políticos e de esquerda nas questões mais relevantes (favorável à desmilitarização da polícia, contra o projeto de lei antiterrorismo – criminalização de ativistas, protestos e movimentos sociais, contra o projeto de lei que criminaliza o aborto, entre outros), por sua atuação no Judiciário, como decisões envolvendo a proteção às terras indígenas no Mato Grosso, só para citar um exemplo; e na sua atuação junto à Associação de Juízes para a Democracia (AJD).

Célia possui posicionamentos muito mais à esquerda do que aqueles que se autointitulam de esquerda. É uma libertária por essência. Suas ideias/ideologias nunca caminharam juntas com a direta desse País (como o PSDB, por exemplo), e por isso percebo claramente que ela agiu com imparcialidade, como tem ser a postura de um juiz. 

Quem nada tem de integridade e imparcialidade, como quase sempre, é a imprensa, que lançou holofotes somente sobre o filho do Lula na Operação Zelotes, uma gotícula num oceano do que está sendo investigado pela Polícia Federal e decidido pela Juíza, muito mais grave em relação a tantos outros empresários e empresas, como montadoras de veículos (Ford, Mitsubishi), bancos (Santander e Safra), grupo RBS, siderúrgica Gerdau, etc. A força-tarefa que montou a Operação Zelotes descobriu a existência de empresas de consultoria para vender serviços de redução ou desaparecimento de débitos fiscais no Carf - Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Se o filho do Lula for inocente, ele não poderia estar em mãos melhores. Mas se for culpado que Justiça seja feita, assim como para todos os corruptos do País.

A cegueira é tanta, que entendem que a Juíza pode ser julgada por ser irmã de um prefeito do PSDB, mas o filho do Lula não pode ser investigado por ser filho do Lula. Como se irmãos fossem necessariamente iguais ou parecidos em atitudes e posicionamentos, o que, diga-se de passagem, acaba ocorrendo justamente o contrário.

A injustiça, no caso, está claramente nesta insinuação de imparcialidade daqueles que querem partidarizar tudo, independentemente se existem ou não lastros de corrupção, tanto do lado do PSDB, como do PT; nesse fla-flu cego e insuportável que virou a discussão política no País.

O que posso desejar à Célia é força para suportar estas acusações infundadas e levianas. Mantenha-se firme nas convicções. Quem te conhece, está contigo! 



"O livro de Célia Bernardes é, no Brasil, a obra  que analisa  com  maior  detalhe  e  com  mais profundidade  o  fenômeno político do racismo de Estado. (...) Assim como a pesquisadora analisa o lado terrível do neorracismo, ela não se esquece das lutas políticas que continuam a ser travadas pelas modificações de tudo o que existe de pesado e opressor no mundo presente. Segundo Célia Bernardes, não temos que ficar paralisados na crítica do mundo no qual vivemos. Existem lutas de resistências, com novos fundamentos e motivações. Como a autora afirma (p. 152), trata-se de uma nova perspectiva, mais otimista, mais serena, em que a modernidade é o espaço em que no qual floresce a liberdade de ser livre, em que os sujeitos se autoconstituem e no  qual podem surgir novos saberes não imperiais, conhecimentos oferecidos a quem queira, livremente, utilizá-los para o exercício de certas práticas libertadoras de si." (Guilherme Castelo Branco, professor do Laboratório de Filosofia Contemporânea da UFRJ).

terça-feira, 7 de julho de 2015

Quando o Corpo liberta a Alma


"O propósito do teatro é fazer o gesto recuperar o seu sentido, a palavra, o seu tom insubstituível, permitir que o silêncio, como na boa música seja também ouvido.” (Clarice Lispector)

Peça Navalha na Carne - Víscera Companhia de Teatro

Gritos, sussurros e o som de pessoas se chocando e passos apressados. Parecia que uma luta se precipitava em algum lugar próximo. Curiosa, entrei naquele corredor estreito e comprido. Com seu teto rebaixado, vozes e movimentos intensificavam-se a cada passo que eu dava. De repente, um grito! Aproximei-me da sala, mas a porta estava fechada. Hesitei, mas a curiosidade foi mais forte e vagarosamente abri a porta. Um grupo de pessoas, suadas, com pés descalços e em frenética agitação. Concentrados, entre expressões de alegria e dor, entregavam-se aos jogos teatrais, buscando dentro de si as emoções e expressões necessárias. O que vi não eram somente corpos, mas também almas em múltiplos movimentos. Seus olhares, suas expressões, prenderam-me. Ao fim do exercício, todos exibiam uma expressão entre a calma e a alegria, e trocavam olhares entre si, daqueles de quem compartilha um segredo.

O teatro foi uma das primeiras atividades culturais da então Colônia Blumenau. Organizado por Roese Gartner, o grupo teatral Frohsinn foi alento e diversão para os colonos-espectadores que deixaram a urbanizada Alemanha e se embrenharam nas matas do Vale do Itajaí. O espectador, naquela uma hora ou mais que está atento e vivendo a peça de teatro, encontra um tempo para dedicar-se a si mesmo, aos seus mais íntimos pensamentos, suas dúvidas sobre a vida, sonhos e angústias. Tempo que atualmente só encontramos no teatro, na leitura e em alguns shows musicais, sendo impossível fazer isso em frente à TV ou mesmo no Cinema; da mesma forma a maioria dos shows musicais que mais nos conduzem para um torpor do pensamento, um esquecimento de si. Pensar a vida é necessário e a Arte pode nos proporcionar esse encontro com a vida e com aquilo que fizemos de nós mesmos.

Se os espectadores encontram dentro de si essa chama de humanidade, imagino quais sejam as labaredas interiores escondidas atrás dos sorrisos cúmplices dos atores. Pude compreender que a Arte pode ser o caminho que tanto procuramos, não apenas como espectadores, mas atuantes, como artistas que se embrenham em seu interior e na história da humanidade em busca daquilo que nos faz humanos. Foi no sorriso cúmplice daqueles aprendizes de atores que comecei a procurar o meu caminho, a minha Arte. Encontrei a literatura e ao final de cada capítulo concluído, após viver as peripécias imaginárias junto com o investigador Otto Schurkemann, também exibo um sorriso cúmplice de quem descobriu um prazeroso segredo.

Em Blumenau temos ótimos grupos teatrais com apresentações constantes, como na Temporada Blumenauense de Teatro, no Festival de Teatro, o curso de teatro na FURB e as turmas da Escola Carona de Teatro, espaços-sonhos para espectadores e aqueles que desejam e precisam romper sua rotina anestesiante, locais em que é possível encontrar em uma hora por semana sorrisos cúmplices, caminhos e novos sonhos.

Artigo publicado na Revista Tie Break, edição 113.
http://www.mundieditora.com.br/h/i/104493760-tiebreak-113

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Até amanhã, Boos!


Meu querido, arrisco a dizer que sei o que você deseja neste seu momento tão delicado. Talvez não seja o que muitos esperam e queiram. Porém, não se trata de nós. É de você, da sua luta, sua vida, tão linda, admirada por tantos!

Tu me fez chorar guri, como criança pequena, na penúltima vez que te vi. Como agora, escrevendo pra ti. Mas tu me mostraste nesses poucos anos de convivência, outros olhares, tantas outras vivências, coisas tão simples, tão óbvias, mas que estavam tão longe de mim. Uma noite estrelada, no alto de um morro, sem luz de faróis de carros, postes ou de bikes. A luz da lua no chão. O silêncio e o cheiro do verde, da terra, sem fumaças ou gases. O barulho das folhas na terra e no alto das árvores, sem vozes e motores, sem asfalto. Os rios percebidos e sentidos à noite, só pelo movimento da correnteza chegando nas pedras, sem nenhuma luz. Colher tangerina das árvores de beira da estrada, mortos da fome depois de quase 70 kilômetros de pedal. Nossas conversas sérias e ao mesmo tempo divertidas sobre nossas vidas, relacionamentos; enquanto os outros já haviam pedalado a terceira ribanceira, e eu e você, empurrando nossas bicicletas, ofegantes, falantes e confidentes. Eu por ser ainda iniciante, você, por ser experiente, mas já nitidamente cansado.

Querido, estou aqui pra te dizer de peito aberto, que desejo exatamente o que você deseja nesse momento pra ti. Seja livre, como você sempre foi e quis ser.

Por isso, termino te dizendo que me lembro da última pergunta que te fiz, para então terminar esta carta:

- Quando é que você vai voltar a pedalar comigo?
- Amanhã! – disse você, convicto.

Até amanhã então, Boos. Até amanhã!






quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Blumenau, onde nos roubam até o céu!



Estão em plena campanha, não se acanham e nem disfarçam. Afora algumas vozes dissonantes, assistimos o passar dos tratores sobre nossas paisagens, horizontes e no que resta de áreas verdes em Blumenau. A ferro e fogo – temos o Frohsinn como testemunho –, eles avançam, protegidos por questionáveis alterações no plano diretor.

Uma das novidades agora é tentar extinguir parte de uma zona recreacional urbana para transformar em zona comercial, tudo para atender a interesses privados e especulativos de alguns poucos, construtores que querem construir em áreas destinadas à preservação de mata e prática de atividades esportivas. Esta é uma das mais de 30 matérias que estão para ser aprovadas numa audiência pública marcada para o dia 30/09, na Câmara de Vereadores. Sim, caro leitor e leitora, estão loteando e vendendo nossa cidade e a população não está ciente.

Afinal, para quê espaços verdes e de lazer? Os prédios estão aí brotando até em beira de rios, para cegar suficientemente nossos olhares e tornar nossa vida ainda mais quente neste vale, que de “europeu” só tem o nome que vendem em campanhas de marketing rasas e de gosto duvidoso.

Em Blumenau, um dos "Arranca-céu",
por Charles Steuck

Bastam-nos as pequenas praças, vergonhosamente intituladas de parques, bem no meio do trânsito caótico e barulhento. Com nossas ruas cada vez mais lotadas de carros, precisamos mesmo é abrir mais vias, rodovias e pistas, para serem invadidas por mais motorizados, afinal, são emplacados em média 1.200 novos veículos por mês na cidade, que já é campeã do estado neste quesito.

Blumenau tem o hábito de exaltar as suas ‘grandezas’ confrontando-as com as mazelas de outras cidades, destaca a poluição paulistana e seu trânsito infernal, a violência carioca, e mal se dá conta que vem se transformando naquilo que mais critica. Os prédios a nos cobrir o céu e se esgueirar em nossas áreas verdes são uma prova disso. São Paulo está tentando voltar atrás e se construir como cidade mais humana, seguindo o exemplo de cidades europeias e de Nova York. Por que Blumenau não começa desde já? Por que Blumenau não aprende com o erro de outras cidades e se faz realmente melhor? Sem marketing, apenas multipliquem as áreas verdes, façam ciclovias, torne-se de fato a cidade jardim e deixem o nosso céu livre de tantos prédios arranca-céu!


Artigo publicado no Portal Desacato (Florianópolis), no Blumenews, Portal Controversas e Jornal de Santa Catarina.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Em ‘O Caso dos Ossos’, roubaram o Dr. Blumenau!


O livro “O Caso dos Ossos” (Ed. Liquidificador, 2014) trata sobre um investigador que está aposentado alguns anos da polícia civil, que resolve revelar um dos ‘casos especiais’ que teve que investigar e acobertar na cidade de Blumenau. A missão do investigador não era só descobrir quem praticou o crime, mas, sobretudo, encobrir o crime, a fim de manter incólume aqueles que comandam a cidade, direta ou indiretamente. É por meio do seu mea culpa que o leitor pode vir a realizar uma reflexão sobre as relações de poder que podem permear a cidade. Neste romance, a cidade é o personagem principal, por vezes dúbia e temperamental, permitindo que a narrativa não se atenha somente aos passos da investigação e à resolução do crime, como numa simples história detetivesca de crimes e mistérios. Esta construção possibilita ao leitor dar vida ao cenário e aos personagens, bem como reconhecer-se na cidade.

Mesmo descrito pelas autoras como um romance (anti)policial, dado o enredo e a construção da personagem do investigador, é bem verdade que a sua escrita se apropria da linguagem policial consagrada por escritores como Edgar Allan Poe, Conan Doyle, Agatha Christie, Georges Simenon, bem como os brasileiros Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza, entre outros.

O crime contado nesse livro comunga com o insólito, eis que descortina o roubo dos ossos do fundador da cidade, trazendo também à tona, de maneira sutil e por vezes sarcástica, alguns fatos que contribuíram para o processo de construção de um mito fundador e herói da cidade.

O livro foi contemplado com o Prêmio Elisabete Anderle da Fundação Catarinense de Cultura, edição 2013.

 Crítica

"Uma bem humorada e inteligente crítica à Blumenau e suas tradições (...) Há que se ler esse “Caso dos Ossos”. Talvez se possa, depois, entender um pouco mais esta cidade de Blumenau."
Urda Alice Kluger 
(leia a crítica na íntegra)

“Sally Satler e Carla Fernanda da Silva conseguiram ter êxito na difícil tarefa de escrever um romance a quatro mãos. Entre as idas e vindas do investigador pelas ruas, lugares e neuroses blumenauenses, as autoras ainda conseguiram inserir temas cruciais à nossa região, como, por exemplo, as questões da mobilidade urbana, da exaltação local ao nacionalismo alemão e dos conflitos e políticas culturais do município.
Nesta leitura, tão importante quanto descobrir os culpados de crimes há muito esquecidos é, também (e, talvez, principalmente), olhar com outros olhos a cidade a que estamos acostumados e que, ilusoriamente, acreditamos tão bem conhecer.
Depois deste primeiro romance, a vontade que surge é a de que Sally Satler e Carla Fernanda da Silva ajudem Schurkemann a subir novamente ao sótão de sua casa para que ele nos presenteie com a narração de outros dos seus “casos especiais””.
Gregory Haertel (leia a crítica na íntegra)


Lançamento:

Local: Feirinha Wollstein (Rua R. Mal. Floriano Peixoto, 89, Centro, Blumenau/SC)
Dia: 14/09/2014 (domingo)
Horas: a partir das 15h
Preço especial de lançamento: R$ 15,00


Sobre as autoras:

Sally Satler: é advogada e procuradora municipal. Descobriu na escrita uma forma de expor criticamente suas percepções sobre a cidade, a cultura, a arte, trazendo olhares de outros lugares e mundos. Escreve para portais e jornais de Florianópolis, Blumenau e região, bem como no seu blog: www.sallysatler.blogspot.com. Adora viajar, escrever, pedalar. É apaixonada pelas bicicletas.

Carla Fernanda da Silva: é historiadora e professora. Autora de Grafias da Luz: a narrativa visual sobre a cidade na revista Blumenau em Cadernos (Edifurb, 2009), organizou o livro Clio no Cio: escritos livres sobre o corpo (Casa Aberta, 2010), coorganizou o livro Corpos Plurais: Experiências Possíveis (Liquidificador, 2012) e a exposição fotográfica Escritos da Carne, contemplada pelo prêmio Elisabete Anderle (2010). Também coproduziu o documentário Cultura Negra: identidade e diferença em Blumenau. (2009). Adora ler, escrever, e é aficionada por fotografia.





Para saber um pouco mais sobre o livro, acesse:

Página do livro: 

Book trailer:






quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Morro do Aipim e o Frohsinn: quem está com o fósforo?


Todos os blumenauenses sabem que este incêndio no Frohsinn não foi acidente. Câmeras de segurança foram furtadas, antes das duas outras tentativas de incêndio. Não houve acaso, mas um planejamento cuidadoso. Ironicamente, froshinn significa alegria em alemão, e assim sinto que sistematicamente tem se destruído a alegria desta cidade, que está se tornando um local bem difícil para se viver.

Afinal, quem são essas pessoas que continuamente passam por cima da vontade da maioria da população? Quando vamos dar um basta nos desmandos deste grupelho?

Há um projeto para o local – agora apenas mirante do Froshinn – que beneficia toda a população, pois pretende mantê-lo público, com livre acesso para todos; projeto este que a Administração do município ignora sumariamente, ‘cegos’ e sedentos em concretizar a venda daquele terreno. Tanto é, que quando artistas tentaram levar vida àquele local, foram expulsos, com violência, cacetetes e spray de pimenta.


Foto: Grupo Por Gentileza, em Blumenau (Facebook)

Estamos mesmo sem passaporte. Sem rumo e roteiro. A cidade, em nome da especulação imobiliária se desintegra, e o poder público, conivente, permite matar a cidade, sua história e qualquer chance de garantir qualidade de vida para seus cidadãos, tudo em nome do lucro de alguns poucos.

A melhor resposta para o título deste breve texto, veio da historiadora Carla Fernanda da Silva: “Têm muitos, mas muitos blumenauenses com o fósforo aceso nas mãos. Administração municipal, os conselheiros que votaram a favor da venda, apoiadores e os indiferentes”.

 
Foto: Jaime Batista da Silva

E você? Também está com o fósforo aceso nas mãos?

Se não, então contribua com a cidade, imprima e assine a petição pública abaixo[1], organizada pelo Grupo Movimento contra a venda do Frohsinn[2] e ajude a manter aquele local público. Ou ainda, recolha assinaturas entre os seus conhecidos, vamos reagir a essa imposição, não permita que os incendiários do Frohsinn sejam vitoriosos.




[1] Abaixo-assinado para impressão em papel: clique aqui. Para assinar petição pública on line: clique aqui.
[2] Saiba mais sobre o Movimento contra a venda do Frohsinn: clique aqui


Artigo publicado no Portal Desacato (Florianópolis), Portal Blumenews e Jornal Expressão Universitária (Sinsepes/Furb).