quarta-feira, 28 de maio de 2014

“Ninguém apanha quieto, só Gandhi”


Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias...
(Um Índio, Caetano Veloso)

Os índios que se manifestaram em Brasília, suplicando mais uma vez por justiça, pela demarcação das poucas terras que lhes sobraram e ainda não foram usurpadas, foram covardemente atacados pelas fardas do nosso Estado, fardas que no passado eram inimigas e que agora são aliadas, requisitadas na brutal repressão daqueles que tem a coragem de reivindicar justiça. Num trágico eterno retorno da opressão, numa triste constatação que o antigo oprimido, tornou-se opressor.

Fonte: Jornal Der Spiegel (Alemanha)

Esses índios lutam contra a selvageria dos não-índios e, acreditem, não sobreviverão à crueldade, maldade e principalmente à tanta mediocridade dos que pouco sabem e se limitam à entendê-los como selvagens.

Assistimos de braços cruzados, policiais com sua cavalaria, jogando bombas de efeito moral, atirando com balas de borracha. E quando um índio exerce a autodefesa, acertando com seu arco e flecha a perna de um policial, a imprensa do nosso país usa esse fato para tratá-los como selvagens; para então depois repetirmos como papagaios e comentarmos a ‘selvageria dos índios’ nas redes sociais. Todos nós deveríamos saber como bem dito numa das redes, que ‘ninguém apanha quieto, só Gandhi aguentou isso’. 

Jornal Der Spiegel (Alemanha)

Na imprensa internacional, o ataque da polícia aos povos indígenas repercutiu sob outro ângulo: fotografias como do jornal alemão Der Spiegel, filmagens da Agência Reuters e testemunhos de jornalistas internacionais, mostram que quem começou o ataque foram os policiais. Sim, imprensa internacional, porque nossa imprensa vendida ao agronegócio e aos latifundiários preferiu comentar uma flecha que acertou um policial. Uma flecha... contra balas de borracha, gás lacrimogênio, bomba de efeito moral e cavalaria. Lembram na escola que vocês aprenderam que em 1500 os índios nada puderam fazer contra o invasor europeu, pois este tinha armas de fogo, cavalos e armaduras e os índios apenas arco-e-flecha? Estou aqui me perguntando quando o Brasil esqueceu tal fato. Não era para os jornalistas [da mídia corporativista] investigarem detidamente os fatos antes de publicarem? Qualquer livro didático de história do sétimo ano do fundamental ou até mesmo a Wikipédia lhes forneceria informações bombásticas sobre o genocídio indígena que ainda ocorre no Brasil, desde a colonização europeia.

O que os ‘donos’ do Estado e esta mídia não perceberam é que não é mais preciso séculos de silêncio para mostrar a verdade dos fatos. A tecnologia, em tempo real, agora nos mostra o quanto fomos e ainda estamos coniventes com a violência perpetrada por este Estado ‘democrático’.

Deixamos destruir nossas florestas e matas com a invasão do agronegócio e da monocultura. Deixamos nossas cidades praticamente inabitáveis pelo barulho, poluição e invasão descomunal de concreto. Autorizamos a venda de nossas cidades a empreendimentos privados. E com o nosso silêncio somos cúmplices de assassinatos do nosso povo.

E os selvagens são eles?

  
Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto-sim resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de um modo explícito

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio

(Um Índio, Caetano Veloso)


Poema Navio Negreiro, de Castro Alves 
e música 'Um índio", de Caetano Veloso



Fontes:
Washington Post: http://wapo.st/SeJzzS
BBC/Londres: http://bbc.in/1piFZmx
Der Spiegel: http://bit.ly/1tOujHM
New York Times: http://nyti.ms/1kn0k7x
Frankfurter Allgemeine: http://bit.ly/1ot399M

Publicado no Portal Desacato, de Florianópolis.

domingo, 25 de maio de 2014

Uma cartografia do som: a magia da música nas estações de trem


Se existe um excelente lugar para observar o cotidiano europeu é uma estação de trem. Obrigatória em quase todas as cidades, ‘gentes’ de todos os lugares do planeta, com suas diversas fisionomias e trajes, se entrecruzam entre o burburinho incompreensível de tantos idiomas falados. Mas, no meio disso tudo, é possível estabelecer uma linguagem comum a todos: para além do ir e vir de milhares de pessoas, nas ‘Gare’, ‘Hauptbanhof’ ou ‘Central Station’ existem pianos públicos e livres, à espera de alguém para tocá-los. Não raro, você está naquela apreensão, procurando o local de embarque ou a saída da estação e, de repente, esse sentimento se dissipa na harmonia das notas musicais, tocadas por um viajante anônimo.

Nossa primeira boa surpresa foi em Strasbourg, olhamos para o piano e simplesmente pensamos que era do Café ao lado: foi quando um jovem rapaz chegou e começou a tocar que notamos que o instrumento estava ali à disposição de todos. Como em Londres, quando vi um garoto de uns 10 anos tocando com uma habilidade de dar inveja.


St. Pancras Station (Londres)

Talvez a experiência mais bela tenha acontecido num dia bem cedo, por volta das 7h da manhã, na Gare du Nord em Paris, a caminho de Amsterdam. A maioria dos passageiros de pé, com suas malas ou mochilas, olhavam em silêncio, quase estáticos, para o imenso painel de horários e destinos. Concreto, vidro, ferro e a pressa das pessoas aumentavam o frio da manhã. Até que a melodia de Pour Elise, de Beethoven, tocada no piano por algum viajante, curou a ansiedade e me fez lembrar uma cena do filme “Cidade dos Anjos”, com os anjos a ouvir a música do nascer do sol. A fotografia ficou só na memória, pois o nosso trem chegava naquele instante.

Aqui em Paris também é comum ver músicos com seus violões, violinos, acordeões nas estações de metrô, nas paradas ou até mesmo dentro dos vagões. Na estação Saint-Michel, saindo do vagão e subindo as escadas rolantes, encontramos em alguns sábados o haitiano Dikerson Eveillard. Cantor com uma voz vibrante e inconfundível, ele também impressiona pela interação com o público. Não foi uma, mas várias vezes que, voltando de algum lugar, escutamos sua voz e violão. Não há como não ficar ali parada para ouvir ao menos 4 ou 5 músicas; muitos vão parando, cantando junto e alguns até dançam, num pequeno espaço dentro daquela estação, em meio aos passageiros, por vezes apressados, mas nunca incomodados pelo aglomero em volta do artista.  Na primeira vez, lembro-me de subir aquelas escadas ao som de Hallelujah, numa entonação mais que contagiante, e a sensação de não querer que aquele momento terminasse.


Dikerson Eveillard  - Saint-Michel – Station Métro (Paris)

Esbarrar-se com a arte, ser surpreendido por ela (e não somente ir ao seu encontro), é o que também nos fascina. São de momentos assim que precisamos para alimentar o espírito. Esses músicos viajantes, nômades e anônimos em estações de trem e metrô, também nos trazem, nem que por um breve instante, um fôlego de humanidade. 

Publicado no Portal Desacato, de Florianópolis.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Paris à vélo e parques: o que isso tem a ver com Blumenau?


O início do título deste breve texto – Paris à Vélo - eu copiei de um livro que leva o mesmo nome, e que comprei logo que chegamos à Paris, um guia de itinerários para ciclistas, endereços de lojas e oficinas de bike, separados por arrondissement (região). Conhecer Paris de ‘vélo’, descobrindo cada canto, parque, praça, jardim e ciclovia da cidade é realmente vibrante. Andar pelas ciclovias, por ciclofaixas privativas ou até mesmo divididas com pistas de ônibus na região mais central, nos mostra como é possível para uma grande e populosa cidade garantir espaço e segurança nas vias públicas também para os ciclistas.

Ciclovia embaixo de trilhos de viaduto - trilhos de  trem,
próximo à Biblioteca Nacional (Paris)


Ciclovia (Paris)
Ciclofaixa compartilhada (Paris)

Para quem não tem bicicleta e não conhece Paris, basta um mapa e caminhar até uma das 1.250 estações da velib que existem a cada 300 metros, com mais de 20 mil bicicletas à disposição. Nas máquinas, é só acessar o serviço com cartão de crédito que a bicicleta já é liberada. A fim de evitar a não devolução ou vandalismo, o serviço exige caução via cartão no valor de 150 euros, pré-autorizado pelo usuário.

Para garantir que o serviço fosse realmente utilizado, as ruas, avenidas, boulevares, praças e parques foram redesenhados para criar 370 quilômetros de ciclovias. E aí é que está o planejamento de cidade que não aconteceu em Blumenau. De nada adiantou criar estações para locação de bicicletas (2009) se não foram feitas ciclovias, e as poucas que existem não são decentes ou mantidas. Também não adiantou colocar o serviço com um acesso burocrático demais (cadastro na internet, pagamento por hora de uso e ter crédito no celular para ligar e pedir liberação de uma bike), como foi o caso.


Ciclovia (Paris)
Ciclovia (Paris)




Andando de bicicleta por Paris, também foi possível descobrir que apesar do movimento de carros, ônibus e bicicletas nas ruas principais, encontramos inúmeros refúgios por toda a cidade: seus parques, jardins e praças, lotados de árvores, gramados, cadeiras e bancos, nos chamam para um convite ao descanso, à leitura, uma pausa para um lanche, ou um pic nic com a família e amigos nos fins de semana.


Place des Voges (Paris)



Bois de Boulognhe (Paris)



Jardin du Luxembourg (Paris)
Place Leonard Bernstein (Paris)











Esses espaços públicos garantem qualidade de vida e constituem uma das principais atividades de lazer para seus moradores, por isso é impensável privatizar espaço público em Paris. Aí eu pergunto: eles estão errados ou estamos nós? Não é o vandalismo que impede a constituição desses espaços públicos, basta criar mecanismos para impedir isso; uma mudança de mentalidade é que é importante. Shoppings não proporcionam lazer, só mostram o quanto a nossa sociedade é consumista, está doente e decadente. Afora o Ramiro - com lotação máxima, o Parque São Francisco, a rota de lazer da XV - só nas manhãs de domingo e a boa iniciativa de um grupo de amigos para a realização da Feirinha Wollstein - que lota um domingo por mês, acabam-se aí as opções de lazer de rua e públicas na cidade.

Vender imóveis públicos para construção de hotéis ou restaurantes caros (caso do Frohsinn e um terreno ao lado do Galegão) não proporciona lazer à imensa maioria dos moradores da cidade; só aos turistas endinheirados e aos donos desses empreendimentos privados. Isso sim é vandalismo. Em Blumenau, que tristeza, reprime-se quem planta árvores! Ainda insistimos no discurso do lucro e em concepções arcaicas, que nos mostrará cada vez mais decadentes. O que isso tem a ver com Paris e as demais cidades da Europa? Nada!

Fontes:
2) Paris à Vélo: lei guide du routard. Editora Hachette, 181 páginas.
3) A silenciosa decadência dos Shoppings Centers  - Portal Outras Mídias.
4) Blumenau: onde as árvores são ilegais- Jornal de Santa Catarina.
5) Blumenau quer vender o Frohsinn (e um terreno ao lado do Galegão)"O mesmo destino do Frohsinn pode ter o terreno ao lado do Galegão, que a prefeitura tentou, sem sucesso, conceder à iniciativa privada para a construção de um hotel e um estacionamento. Desde 2009 algumas tentativas foram feitas, sem atrair interessados." - Jornal de Santa Catarina. 

Publicado no Portal Desacato, de Florianópolis.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

De bicicleta por Amsterdam


O primeiro impacto ao chegar na estação central de trens de Amsterdam é se deparar com a quantidade de bikes dentro da estação, bastando passar a ‘catraca’ para que os ciclistas pulem nos selins e saiam pedalando ainda lá dentro. Mas ao passar das portas da Central, piscando os olhos e acostumando-se à luz exterior, é que vem o choque maior: a louca [e maravilhosa] quantidade e diversidade de bicicletas em todos os lugares possíveis e inimagináveis. Qualquer espaço com grade de ferro é lugar para elas: pontes, portões, grades de janelas de porões, postes, etc. As ciclovias, permanentemente lotadas, exigem um cuidado redobrado dos pedestres e ciclistas; os carros aparecem mais nos horários do rush [meio-dia e fim de expediente], em outros horários a grande maioria são carros de serviço [entregas e etc.] e da prefeitura. Ah! Os trens de superfície (TRAM) interligam toda a cidade. Mas para o morador de Amsterdam o melhor transporte é a magrela.
  
Bicicletada? Massa Crítica? Que nada, apenas o cidadão em seu cotidiano esperando o sinal ficar verde para ‘invadir’ a pista e fazer-se trânsito, não são manifestantes a reivindicar um direito básico que é uma simples ciclovia.

Como ciclista, estava louca pra alugar uma bike e desbravar a cidade. Fizemos isso no dia seguinte e a experiência foi excitante, mas também impactante. Você entra na ciclovia e tem que ficar esperto e atento do mesmo jeito que se dirige um automóvel numa cidade ou rodovia. Os ciclistas de Amsterdam são rápidos, habilidosos e tem pressa, muita pressa. Ficamos apreensivas nas primeiras horas de pedal, ainda mais por perceber que motos de pequeno porte (Biz, Scooter) também podem trafegar nas ciclovias, ultrapassando os ciclistas pelo lado esquerdo.


A bicicleta para o ciclista holandês não é a mesma coisa para nós brasileiros. Lá a bicicleta é trânsito, usada basicamente para se deslocar. As bicicletas de Amsterdam, na maioria grandes omafiets (vi só meia dúzia de montain bike), não são objetos de consumo, de desejo; não é ‘namorada’ como é para nós. Os ciclistas holandeses são desprendidos das suas bicicletas, muitas enferrujadas e desgastadas pelo tempo. Estão na maioria estacionadas nas ruas, normalmente 'coladas' umas nas outras, sob sol e chuva, pois os prédios de apartamentos do Centro histórico são do século XVII e não possuem elevadores, além das escadas serem estreitas.





Em Amsterdam não existem passeios ciclísticos, não existem pedais de fim de semana ou noturnos. Os praticantes de ciclismo de velocidade ou longas pedaladas parecem preferir as ciclovias ao longo das rodovias, devidamente sinalizadas e separadas das estradas por um canteiro de grama de cerca de um metro ou mais após o acostamento. Ou ainda as belíssimas ciclovias construídas por sobre os diques em que é possível ver o mar ou os canais formados e que também dispõem de áreas de piquenique com mesas e mirantes para observar a paisagem.




Pedalar em Amsterdam foi uma experiência única, prazerosa e culturalmente diferente. Você sai de lá com outro olhar sobre a bicicleta... e fica com uma inveja danada da Holanda!




terça-feira, 22 de abril de 2014

A arte que nos desarma


Tenho mil anos.
Foi o que disse o menino.
O soldado riu-se: aterrorizado, o menino variava.
Ou desconhecia o alfabeto numérico.

Tenho mil anos, repetiu ele ante a ameaça da arma.
Se me matar, prosseguiu ele,
Vai-se abrir um buraco maior que o chão.

O soldado fitou os pés e viu o abismo.
Só então deu conta
Que ele mesmo era o menino que matava.

(Guerra, de Mia Couto)

O British Museum, em Londres, nos impressionou muito pela vasta coleção de objetos e obras de arte oriunda de todos os continentes, representando os diversos períodos da história e pré-história. Mas de todas, duas obras contemporâneas nos causaram forte impacto: uma árvore e uma cadeira, ambas feitas de armas usadas numa das guerras internas mais sangrentas já ocorridas no mundo: a guerra civil de Moçambique (1976-1992), fomentada por países estrangeiros.

Após a corrida colonial do século XIX para a África, veio a corrida ideológica do século XX (capitalismo ocidental x comunismo do leste europeu). A consequência foi um enorme afluxo de armas para o continente - e assim a guerra entre grupos internos estava provocadamente travada, causando mais de 1 milhão de mortes, 4 milhões de refugiados e 300 mil órfãos de guerra.


‘Trono de Armas’, no Museu Britânico. Do artista
moçambicano Cristóvão Canhavato (Kester), 2001.  
Foto: Carla Fernanda da Silva.

Quantas vidas as armas que compõem essa escultura tiraram? Este trono de armas representa a nossa indiferença diante do assassinato de milhões de pessoas, indiferença que vemos sendo alimentada mais e mais na nossa barbárie contemporânea, exposta no sorriso de aprovação na epidemia de linchamentos, no silenciar diante da violência policial, no desejo da morte do desconhecido, do outro, eleito para ser um inimigo social: o negro, o índio, o judeu, o muçulmano, o cigano... a nossa indiferença e barbárie está sentada sobre um trono de armas.

Em Moçambique, ao final da guerra, as armas continuaram presentes, e aí estava a principal dificuldade em mudar toda uma ‘geração militarizada’ para tomar seu lugar numa sociedade civil pacífica. Transformar morte em vida é o que a natureza nos ensina, a semente morre para originar a planta, o corpo em decomposição é o húmus que alimentará a planta, que alimentará animais e homens. Não foi em congressos da ONU ou nas suntuosas salas dos ‘donos do mundo e das armas’ que o povo de Moçambique aprendeu a transformar morte em vida; foi a sabedoria ancestral que os ensinou a ouvir e aprender com o mundo. E assim foi criado o projeto TAE – Transformação de Armas em Enxadas (ferramentas), em 1995. Armas, antes utilizadas pelos combatentes de ambos os lados, foram voluntariamente trocadas por ferramentas como enxadas, bicicletas, máquinas de costura, etc. E as obras ‘Trono de Armas’ e ‘Árvore da Vida’ foram feitas com armas desta guerra.


‘Árvore da Vida’, no Museu Britânico. Dos artistas Adelino Serafim Maté,
Fiel dos Santos,  Hilario Nhatugueja e Cristóvão Canhavato (Kester), 2005.
Foto: Sally Satler.

Detalhe das armas na obra ‘Árvore da Vida’.
Foto: Carla Fernanda da Silva

Observar estas obras nos remete a questões para além da originalidade, nos trazendo um desconforto, de fazer pensar porque nós humanos, somos tão desumanos. Sobretudo, essas obras nos falam de esperança, de triunfo da vida sobre uma guerra com tantas mortes. Deveriam servir de exemplo para este Brasil de tantas violências cotidianas. Não é apenas o outro que estamos matando, e sim a nós mesmos, todos os dias. Desarmar mentes, para desarmar as mãos, é o que precisamos. Mas não, não temos mais tempo e vontade pra parar, pensar e aprender. Em que momento deixamos isso acontecer?


Fontes:
http://www.bbc.co.uk/ahistoryoftheworld/about/transcripts/episode98/
http://www.museum.wa.gov.au/extraordinary-stories/highlights/throne-weapons
http://eportuguese.blogspot.fr/2013/11/transformando-armas-em-arte.html


Publicado no Portal Desacato, de Florianópolis.

domingo, 16 de março de 2014

Blumenau e os 70 manifestantes: quem são os vândalos?


Pouco importa se foram quatro ou cinco a quebrar uma janela de ônibus e pichar outros três. Não importa se a maioria dos 70 manifestantes estava lá exigindo transporte coletivo de qualidade, para os milhares de blumenauenses que não estavam. Ou se lutavam contra as latas velhas que andam pela cidade, com prazo de validade vencido, sem ar condicionado, fazendo o povo passar um calor dos infernos, socado dentro dos coletivos. As notícias e os comentários, até mesmo dos que usam ônibus e só sabem reclamar do transporte e da passagem pela internet, são na maioria contrários a todos os 70 que estavam ali. Afinal, que tem demais os ônibus serem ruins e a passagem ter aumento maior que a inflação?

Manifestantes sentados no Terminal Fonte
Foto: Rick Latorre, via Blumenews

Foto: Rick Latorre, via Blumenews

Relatos de testemunhas, inclusive jornalistas, dão conta que um motorista tentou passar com o ônibus em cima dos manifestantes que estavam sentados na pista do Terminal Fonte, machucando alguns deles. Em retaliação, quatro ou cinco quebraram o vidro de um ônibus que não deveria mais estar circulando e costumeiramente ‘quebra’ no meio dos trajetos, além de pichar alguns outros. A partir disso, houve violência policial e pancadaria contra diversos manifestantes, mas os PM´s não contiveram ou prenderam quem pichou ou quebrou vidro de ônibus. Prenderam aleatoriamente, inclusive quem não estava envolvido no episódio. Muitos foram contra-argumentar e a polícia, treinada pra ser truculenta, atirou com balas de borracha a esmo, jogou spray de pimenta e lançou seus cães contra os manifestantes; inclusive numa menina, estudante secundarista da metade do tamanho dos policiais. Foram atingidos não só os manifestantes que não tinham nada a ver com depredação, mas também os que estavam no terminal à espera de seu ônibus, inclusive idosos e crianças.

Estudante secundarista mordida por um cão da PM
Foto: Reprodução Facebook


Durante a ação, cobradores e motoristas, numa total demonstração de alienação política e social, bateram palmas pela atitude covarde dos policiais. Alguns jornalistas foram ameaçados. Um cinegrafista também, porque estava filmando a ação e teve que sair rápido do terminal. Fotógrafo foi agredido. Três manifestantes foram presos e encaminhados à delegacia. Alguns foram para lá e ficaram do lado de fora em solidariedade aos colegas. Dali ouvia-se gritos e pancadas que estavam sendo dadas nos detidos, inclusive num menor. Por isso, correram para a lateral da delegacia, reagindo verbalmente à ação. Foram chamados mais PM´s com cacetetes e cães para agredir a todos que estavam ali e levaram mais dois manifestantes para dentro da delegacia. Um deles teve o braço esquerdo quebrado por cacetetes da PM (com necessidade de cirurgia), levou mais cinco pontos no braço direito e ficou com vários hematomas nas costas provocado também pelos cacetetes após já estar imobilizado.

Enquanto isso, sete foram para o hospital, sendo dois com fraturas e um por ataque de um dos cães. Enquanto isso, no dia seguinte, a imprensa ‘oficial’ escrita e televisiva relata que ‘houve confronto com a polícia’ e que ‘pelo menos três ônibus que estavam no local foram danificados, mas a Polícia Militar (PM) não registrou nenhum ferido’. Ah, esses vândalos da imprensa. Ah, esses vândalos de farda! Vamos acreditar nesta versão. Não importa. Não foi com a gente mesmo, não é?

Por enquanto.


Publicado no Portal Controversas, de Blumenau e Portal Desacato, de Florianópolis.


quinta-feira, 13 de março de 2014

Um desejo de cidade no Fórum Mundial da Bicicleta


Por Sally Satler, membro do conselho
deliberativo  da ABC Pró Ciclovias.
e-mail: sally.satler@gmail.com

‘Um desejo de cidade’ é o sentimento compartilhado por todos os ciclistas, não somos apenas um grupo a reivindicar ciclovias e respeito dos motoristas, somos pessoas lutando por uma cidade como espaço de experiências. Desde a invenção do automóvel e do fordismo, artistas e filósofos[1] denunciam que o almejado progresso da modernidade tem nos usurpado o prazer de experimentar o mundo. Condenados a viver entre gestos repetitivos, entre paredes de uma fábrica ou escritório, dentro de insípidos shoppings ou ao lento ir e vir entre o frio metal e o vidro de um carro, não conseguimos mais perceber que existe um mundo a ser vivido em plenitude. Desejamos experimentar a cidade, experimentar o campo, sentir o sol e a chuva, o calor e o frio sobre uma bike que, como veículo, para além de sustentável e de mobilidade inteligente, proporciona-nos liberdade.

E é por esta razão que foi concebido o Fórum Mundial da Bicicleta. A primeira edição, em 2012, foi pensada e realizada um ano após o atropelamento proposital de um coletivo de ciclistas durante uma bicicletada/massa crítica[2] em Porto Alegre. Entre os dias 13 e 16 de fevereiro de 2014 foi Curitiba quem ganhou na diversidade de ciclistas e no colorido das bicicletas ao sediar a terceira edição, que até então só tinha acontecido na capital gaúcha. Não tivemos nenhum representante da nossa Prefeitura, em que pese ter sido convidada em dois momentos pela ABC Pró Ciclovias, mas muitos ciclistas de Blumenau estiveram no III FMB, misturando-se entre as tribos de várias cidades do país e do mundo.

Foto: Magali Moser

O evento realmente surpreendeu: a programação era totalmente gratuita, eis que foi financiado colaborativamente, via Catarse[3]. O conceito desta edição, “A cidade em equilíbrio”, teve o propósito de repensar e discutir o planejamento das cidades, trazendo idéias voltadas diretamente ao ser humano e espaços de convivência, entre exposições, palestras, oficinas, pedaladas e lançamento de livros. De Blumenau, foi apresentada a proposta de documentário ‘Vida em Trânsito’, de autoria de Diego Dambrowski, que expõe o paradoxo da ‘carrocultura’ num país ‘engarrafado’, propondo a retomada da bicicleta na mobilidade urbana. Também elegemos o catarinense André Geraldo Soares para a presidência da União dos Ciclistas do Brasil (UCB), entidade máxima do cicloativismo no país.
  
A tônica da maioria das atividades do Fórum foi a troca de experiências entre cidades do Brasil e de outros países. Na palestra organizada pelo movimento ‘Voto Livre’, de Curitiba, foi exposta a plataforma digital para apresentar projeto de lei eletrônico de iniciativa popular de mobilidade urbana sustentável, que ficará disponível e livre para outras cidades. Na feira do evento, estavam disponibilizados gratuitamente materiais sobre cicloativismo e ideias de projetos para implantação de ciclovias e também de bicicletas compartilhadas. Na Bicicletaria Cultural[4] foi realizada a oficina ‘Cartografia Poética das Trajetórias’, em que os participantes foram instigados a desenhar o seu principal trajeto no trânsito, para depois apresentar micro-narrativas das sensações, chamando a atenção para a importância de tornar o trajeto um espaço de experiências e vivências, algo extirpado na vida moderna. Muitas outras atividades (painel de economia criativa, painel de saúde, filmes sobre bicicleta) aconteciam simultaneamente e a opção por uma delas era intuitiva.

Mas todo o evento estava alinhado a um discurso: a busca de uma cidade para as pessoas. E pra isso, a bicicleta não pode ser vista somente como meio de transporte ou de lazer. Ela é instrumento de transformação da mobilidade urbana, verdadeiramente sustentável. É disso que precisamos nos convencer!


Oficina “Cartografia Poética das Trajetórias”
Foto: Carlos Roberto Pereira




[1] Como Chaplin, em ‘Tempos Modernos’, e Fritz Lang, em ‘Metrópolis’.
[2] Massa crítica ou Bicicletada (termo usado no Brasil) é um evento que ocorre em mais de 300 cidades ao redor do mundo, geralmente na última sexta-feira do mês, inclusive em Blumenau. Ela acontece quando dezenas, centenas ou milhares de ciclistas se reúnem para reivindicar seu espaço nas ruas, lutar por um trânsito mais humano e por um mundo mais respirável.
[3] Site que viabiliza o financiamento coletivo de projetos, também conhecido como crowdfunding. Consiste na busca de capital para iniciativas de interesse coletivo, normalmente financiado por pessoas físicas. Saiba mais: www.catarse.me.
[4] Espaço permanente de apoio e serviços aos ciclistas, como: estacionamento e aluguel de bikes, oficina mecânica colaborativa e até sesta em redes após o almoço. Saiba mais: http://bicicletariacultural.wordpress.com/

Artigo publicado no Jornal Expressão Universitária, do SINSEPES/FURB.