Agora,
em abril, foi a terceira vez que viajei para o Rio de Janeiro. Nas duas
anteriores, só andei de carro/carona ou táxi, convencida da famosa violência e
do medo de assaltos. Mas dessa vez, contra todos os meus medos e temores, tomei
a decisão de não usar táxis para circular por lá, optando pelo transporte
coletivo e bicicletas de aluguel.
Esperava
encontrar uma cidade repleta de moradores presos em seus carros, mas pra minha
surpresa havia muita gente andando de bike, não só pra passear, mas também
fazer compras, ir ao banco, a escola ou ao trabalho, e fazer entregas (de
remédios, gelo, água, entre outras mercadorias). Também fiquei surpesa com a
enorme quantidade de bicicletas motorizadas circulando pelas bem planejadas ciclovias
e passeios públicos, ao menos na zona sul, centro e proximidades. Percebi o
incentivo ao uso de bicicletas no dia a dia pela quantidade de paraciclos,
ciclovias ou ciclofaixas. Quase não tem motos circulando e o trânsito é tomado
por ônibus e táxis.
Os
espaços para ciclovias e calçadas amplas sem buracos e com acessibilidade,
estavam presentes nos bairros que percorri. É certo que entre a Lapa e o centro as calçadas e as ruas são
estreitas, mas isso também se explica por ser uma cidade antiga, com ruas
planejadas para pedestres, cavalos, carroças e padiolas. Os ônibus não eram
superlotados e eu fui sentada todas as vezes que usei, mesmo em dia de semana e
em horários de pico, porque havia ônibus a cada 10 minutos.
Circulei
4 dias por lá e peguei 13 ônibus (R$ 2,75 a passagem), além de ter usado o serviço
de locação de bikes do Itaú/Prefeitura por duas vezes (R$ 5 por 24 horas ou R$
10 por 30 dias), que possui 60 estações com 600 bikes distribuídas em 10
bairros da cidade. Foi, de longe, o melhor jeito de conhecer um pouquinho do
Rio. Finalmente!
Nessas idas e vindas de bairro a bairro e no centro, precisei contar com a ajuda de muitos, mas muitos cariocas: dos jornaleiros de bancas, dos vendedores de barraquinhas de pipoca no centro e barraquinhas de sucos e água na praia, dos motoristas, cobradores e passageiros de ônibus. Também teve a senhora moradora de Copacabana, que tomando um banho de sol na cadeira de rodas em frente de seu prédio, foi muito atenciosa pra nos ajudar a encontrar o bairro Peixoto. Tem gente estressada também, mas que se revela acolhedora e atenciosa logo que ouve um bom dia acompanhado de um sorriso.
Não
entrei em nenhum shopping da cidade e
fugi dos restaurantes caros para turistas, que em geral não possuem o sabor da
cidade. Não fui ao tradicional Cristo Redentor e nem ao bondinho do Pão de
Açúcar, e alguns dirão que cometi sacrilégio por isso.
Mas fui
aos barzinhos frequentados há anos por cariocas boêmios, na Lapa e na rua
Vinícius de Moraes. Entrei num sebo muito legal na rua Barata Ribeiro e saí de
lá carregada de livros e discos de vinil a R$ 1 cada. Também assisti a uma peça
de teatro muito boa num pequeno teatro em Ipanema. No Rio ,
como sabemos, o teatro e arte fazem parte do cotidiano e da vivência de muitos
moradores, e por isso também atrai os turistas.
E assim
fui conhecendo um pouco esse povo e alguns de seus lugares e bairros: Glória,
Jardim Botânico, Leblon, Ipanema, Copacabana, Peixoto, Lapa e Santa Tereza,
desconstruindo alguns dos pré-conceitos que tinha por causa das notícias de TV
e Jornais, onde se dissemina a cultura do medo.
Não
estou aqui pra enaltecer a cidade, pois sabemos de seus graves problemas de
segurança pública, saúde, drogas, miséria e sua exploração; e de muitos bairros
e regiões com infindáveis problemas. Mas para dizer que conhece uma cidade, seu
povo e sua cultura, só quem se aproxima do dia a dia dos seus moradores e
conversa com eles sem medo. O turista, só vive a cidade, se tenta não ser um
turista. Conhecer uma cidade só se torna interessante, se você não for a um
cenário de programas e locais artificialmente fabricados para turistas. Cidade
boa para os turistas é aquela que é boa para os cidadãos que nela moram. Isso
vale pra Blumenau também. Nossa cidade é boa para o cidadão? Ou apenas um
cenário para o turista?
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